Confesso, como alguns já sabem, que não nutro grande empatia por pessoas como o Dr. Feliciano Barreiras Duarte.
É justo, contudo, que acrescente que respeito aqueles que acham que se trata de uma enorme injustiça para com o dito senhor Deputado, e dos outros, daqueles que acham que tudo não passa de dor de cotovelo (para não dizer outra dor!).
Exige-se igualmente que declare que o Dr. Barreiras Duarte tem um percurso académico muito mais brilhante que o meu, já que está a concluir o seu doutoramento na universidade pública de Berkeley (EUA), tem um percurso político inquestionavelmente mais rico, e que o Dr. Barreiras Duarte ganhou eleições que eu nunca ganhei.
Tudo isto é verdade.
Mas não é menos verdade que a entrevista dada pelo Dr. Barreiras Duarte ao Jornal das Caldas é um verdadeiro desastre. Não um desastre para ele próprio, como é óbvio, que faz vida disso mesmo, de falar para as bases pouco exigentes, mas um desastre pelo que diz e como o diz.
Senão vejamos.
Começa o intróito por dizer que “foi secretário de Estado de dois Governos na presidência do Conselho de Ministros” (faltando apenas dizer que no total foi equivalente a menos de um) e que tinha “oficialmente as tutelas da imigração e da comunicação social”. As tutelas da imigração e da comunicação social? Mas como? Assim tipo o SEF e o Instituto da Comunicação Social? Não, nada disso, tinha umas competências menores sobre o Programa Escolhas, tutelava o Alto-Comissariado para a Imigração e Minorias Étnicas e os jornais e rádios locais designadamente o porte-pago. Para uns isto pode parecer muito, para outros quase nada. Depende do ponto de vista. Aliás, diga-se, houve mesmo um jornal do Oeste que noticiou, na altura, que Barreiras Duarte “vai ocupar o pelouro da Paridade (oportunidades entre homens e mulheres)”.
Depois há aquela graçola de que “os seus colegas de Governo decidiram atribuir-lhe publicamente uma terceira tutela – a de Leiria e do Oeste”. Isto é patético. De facto, bem são conhecidas as deslocações com colegas de Governo a tudo o que mexia em Leiria ou no Bombarral, mas era um sinal de ter pouco para fazer e não uma verdadeira “tutela territorial”. Era certamente nessa qualidade que inaugurava casas sociais comparticipadas pelo INH e centros de saúde no Bombarral, sua terra Natal. Isto com a tutela da Paridade e da Imigração. Eram estes e outros sinais que davam conta do desastre anunciado dos Governos PSD/PP.
Depois o Dr. Barreiras Duarte despreza os seus colegas da oposição eleitos por Leiria. Sobre a Ota ele acha que só ele e os inenarráveis colegas Carlos Poço e Ofélia Moleiro (não me façam falar destes) é que se bateram condignamente pela Ota. “Sobre os outros sete eleitos por Leiria, eles que expliquem”. Elegante. Aliás faz lembrar a posição de um certo governante que se tendo batido contra as portagens no Oeste, se fechou em copas nas portagens da CREL.
Mas senhor Deputado, lembro-me, pelo menos, do Deputado António Galamba (que apesar de eleito por Lisboa) muito se indignou e muito se bateu contra o Governo em funções por essa dita causa da Ota.
E ainda sobre a “causa da Ota”, como se de uma causa fosse, e não um investimento crucial para o país, diz esta coisa monstra “.É que para além de muitas outras coisas eu não me esqueço que votei várias vezes em Conselho de Ministros – enquanto secretário de Estado – decisões favoráveis directa ou indirectamente à Ota e ao TGV”.
Votou em Conselho de Ministros? Como secretário de Estado? E os outros? Votaram contra ou votaram todos a favor. E já agora diga lá, nesses dois Governos brilhantes a que pertenceu, e em que os secretários de estado votavam pelos ministros em Conselho de Ministros várias vezes, directa e indirectamente (seja lá o que isso for) a favor da Ota, como é que chegámos a 2005 e a Ota não foi iniciada? Tanta votação para nada!
E depois a capacidade para torrar os companheiros de partido e de Governo: “Mas não fui só eu a votar! Daí que gente do PSD que mudou de opinião me tenha surpreendido muito pela negativa. A começar pelo Dr. Marques Mendes. Para mim isso é clássico espertismo e oportunismo”. Sim senhor, o antigo presidente do PSD e Ministro é um chico-esperto! Boa.
Sobre o caso da Ota é curioso que o Deputado e Autarca classifica o processo negocial em curso com os autarcas do Oeste como “um embuste”! “E isto para não adjectivar de outra forma”, descansa-nos. Mas então nesse grupo não estão destacados presidentes de câmara do PSD? E vão todos nesse embuste? Embuste andou o Dr. Barreiras Duarte a fazer, passeando pelo Oeste e arredores, a dizer que a Ota vinha aí e não veio.
E depois, talvez a minha favorita, quando se refere aos “actores” da política que “ são excessivamente generalistas e gelatinosos”. Bem, esta, de quem andou de braço dado com Santana Lopes e Menezes é de bradar aos céus.
Há depois um assomo de autoridade enquanto “ex-governante” que tutelou a imprensa local e regional. Sobre ela fala “do impacto positivo que os media (em particular de proximidade) têm na promoção do desenvolvimento económico, social e cultural à escala regional e local”. “É determinante que exista uma opinião pública com acesso a conteúdos informativos e formativos de qualidade”. Pois é, e então revistas como a RIO são mesmo fundamentais nos “conteúdos informativos e formativos de qualidade”. Qualidade de promoverem o executivo, nada mais.
E depois mais uma machadada pelas costas a uma colega de partido. Diz o brilhante jornalista: “O seu nome, o de Telmo Faria e até o de Fernando Costa têm sido falados como potenciais candidatos à Câmara Municipal de Leiria”. Ah dizem, olha eu nunca ouvi tal coisa. Já vi o Dr. Barreiras Duarte a escrever um livro com um nome estranho e que era a tentativa de se candidatar por Leiria. Já vi o Dr. Telmo Faria a pôr-se em bicos dos pés, nunca vi o Fernando Costa em tais posturas, por isso, essa do “têm sido falados” ou foi de ouvir dos próprios ou então o jornalista anda a sonhar alto.
“Onde andam e estão os vossos colegas deputados do PSD Luís Pais Antunes e Mário David?” – pergunta o jornalista atrevido, “É que ninguém os vê e sabe o que fazem”- insiste e recalca o dito jornalista…”Não me faça perguntas difíceis. Pergunte-lhes a eles”. A elegância em pessoa. Palavras para quê, é um artista português.
Para finalizar ficamos a saber a razão pela qual se tem batido pela limpeza na Lagoa de Óbidos “nos últimos 15 anos na minha intervenção autárquica, parlamentar, governativa e até cívica”. Não se pode falar em sucesso, se o senhor se bate há 15 anos e a coisa está cada vez pior…. Mas afinal é porque a Lagoa é importante? Não, é por “eu ter a memória de quanto fui feliz durante vários anos ao fazer férias em Óbidos e na Foz do Arelho” e “que a Lagoa de Óbidos representa um lugar especial no meu coração”.
Que bonito. Nada como agir em função do coração.
Em suma, ou a minha dor de corno é monumental (hipótese que deixo em aberto para alguns cujo QI é miserável e o QP -“coeficiente político”- nulo) ou então estamos na presença de umas das piores entrevistas a um político de que há memória. A que acresce uma situação deveras mais grave: e que tal uma ideia? Uma ideia que seja, para o Oeste, para Leiria, para o País? Era pedir demais não era?
Luís Carvalho